terça-feira, 1 de abril de 2008

O PROFETA GENTILEZA,



O Profeta Gentileza, um ser humano extraordinário, apareceu-me num dia muito especial de minha vida. Lá estava ele com o seu vestuário típico, usava uma bata branca e um cajado, uma figura muito limpa, barbas e cabelos brancos e longos. Era, creio um carioca da gema, viajava muito, pregando a sua filosofia: o amor e a solidariedade. Uma vez, acredito há mais de duas décadas atrás, no ano de minha formatura na Faculdade de Direito, depois de conduzir a Turma de minha classe em uma excursão para visitar uma Penitenciária na região da Grande BH (Belo Horizonte), aproveitamos o sábado, e, fomos todos fazer uma visita à cidade de Ouro Preto, a qual, foi meu refúgio de encontros e congressos do Movimento Estudantil, durante o período de reconstrução da UNE e da UEE, detonadas durante o regime militar que tivemos num triste momento da história política do Brasil.

Lá estava eu, em Ouro Preto, naquele entardecer barroco, depois que o nosso colega “Sebastião” ter atacado com seus imensos e corrompidos dedos das mãos, os seios suaves de uma donzela que descia pela praça central, usando apenas uma delgada camiseta, deixando à vista as formas sensuais e voluptuosas daqueles mamilos suaves. Com os gritos de indignação da mesma, talvez mais de uma sua Tia que lhe acompanhava, do que da própria moça, o nosso colega “Tião” pula para o lado e põe se a falar com um ente invisível que supostamente estava à sua frente, questionando àquela invisível forma como pudera obrigar-lhe a praticar atos tão infames.

O cretino tarado dava uma lição de moral na suposta entidade espiritual como se naquele instante de sua lascívia tivesse sido atacado por um sedutor ente do além. Ele que já estava bastante mareado pelas dúzias de cervejas consumidas, e, com os cabelos e as roupas em desalinhos só assustou a todos com aquele comportamento cafajeste, do qual não pudemos deixar de rir, compelindo a Tia daquela desprotegida moiçola a acercá-la com os seus braços protetores e sair rapidamente dali.

Passado esse que foi um dos entreveros do dia, anoitecia, e, sentado à base da imensa estátua de Tiradentes que há na praça central da cidade. Estava bastante movimentado, pois, por ser quase noite, e, num sábado, todos estavam à rua. O meu físico ainda não era tão judiado pelo tempo (ou por mim mesmo, que não cuidei bem dele), usava camiseta cavada, bermuda, e, claro, para completar o figurino despojado, os tradicionais chinelos "havaianas". Bem à vontade, depois de muito sacrifício para terminar o curso de Direito, estava bem comigo mesmo, com a formatura daquele que tinha sido minha escolha desde criança.

Tinha terminado a Faculdade de Direito, acho que com louvor, cheguei a ser escolhido para Orador de nossa Turma, fui para Ouro Preto também com o fim de comemorar o meu aniversário além da própria formatura. Bastante ébrio e abraçado a um garrafão de vinho, quase levei um sova dele, ou seja, do Profeta Gentileza. Ora, ocorria que ele estava ali na Praça Tiradentes também, e, aproximando-se lentamente de mim, e, levantando o seu cajado aos céus como se fosse ao ataque, peça essa que fazia parte da sua indumentária clássica, vinha em minha direção, gritando ameaçadoramente: “Fim dos tempos, com essa aparência e esse comportamento deplorável, será que, ainda, haverá salvação para o homem. Neste planeta pecador e cheio de ignomínias, caminhas ó infiel por trilhas erradas.” Bom, acho que foi algo mais ou menos assim que ele pronunciou naquela época.

Nossa levei um baita susto, acho que até dei uma melhorada na hora. Pensei até que era Deus que me visitava. Sim, achava isso naquela hora, com toda aquela sua aparência, saindo do meio da multidão. Quanto a mim, aquele jovem agastado pelo excesso de estudos, numa comemoração toda sua, inexplicavelmente um pouco triste; aquele sonhador que mais parecia um farrapo humano jogado às traças em pleno aniversário, sozinho no meio de tanta gente. Não sei se merecia algo assim. Na hora pensei: “Imagine só que presente, Deus falando comigo, ao vivo e a cores”.

Porém, com o susto, e, também, claro, com a melhorada repentina e temporária, dado também ao cajado ameaçador, percebi que não era o “Pai Eterno”, porém, de qualquer jeito, era um fiel e bom “Discípulo” dele.

Nessa época, muitas amigas e amigos jovens que cuja amizade até hoje conservo, além de meus próprios sobrinhos e meu filho, os quais, por aqueles tempos deveriam estar lá no plano celestial, pois, nem eram nascidos; pois, tratavam-se e eram projeções espirituais que retornariam, ou, estaria vindo a primeira vez a este planeta meio combalido. Quanto a mim, segundo o próprio “Gentileza”, já me achava no “eito”, e, pouco ou nada podia fazer, já que trilhava pelas ruas pecado aqui na terra.

Contudo, recordando-me do lado bom do “Profeta Gentileza”, havia uma frase constante em seus lábios, a qual, acabou ficando célebre, e, resumia toda a sua pessoa e modo de ver as coisas: "GENTILEZA GERA GENTILEZA".

Na cidade do Rio de Janeiro, há inúmeros lugares (muros, paredes, barrancos, etc.), os quais, ainda preservam seus escritos. O pessoal no Rio, que convivia com o mesmo estão revivendo e restaurando isso, principalmente quando, recentemente, se comemorou os 90 (noventa) anos de seu nascimento. Como podem ver: acho que o “Profeta Gentileza” tocou e colocou-me num trilho de novo, de certa forma.

Depois daquele encontro sub-repentino, claro, do vinho gostoso que bebia, pois, o havia comprado com os últimos trocados que tinha, não podia jogá-lo fora, ainda que ouvindo um Profeta combatendo o vício. Ora, de certa forma, também, era uma “bebida santa”, ou, “santa bebida” como preferirem. Acabei de beber o resto do conteúdo daquele garrafão, e, muito zonzo fui dormir numa das Repúblicas de Estudantes que tinha me dado abrigo. Lá chegando, estavam todos uma alegria só, havia um “Boite” no porão, e, dançando, bebendo, ouvindo músicas estavam todos.

Ali mesmo, sonolento e ébrio, escolhi uma das grandes almofadas atiradas pelos cantos do piso, junto às paredes, e, encolhendo abracei-me a uma delas, e, ao som do cantor “Fagner”, que interpretava “Revelação”, uma linda canção gravada e que fluía maravilhosamente por todo o ambiente, fui resgatado por “Morfeu” (o Deus do sono na mitologia grega), desaparecendo aos poucos em brumas torvelinhas apaguei totalmente. Agora, como acordei no dia seguinte, bem, isso será outra crônica.

WILSON COSTA E SILVA

ADVOGADO E HUMANISTA

ARAXÁ-MG, 31/03/2008.

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