sábado, 19 de abril de 2008

O PASTINHO.




Tudo aconteceu no finalzinho dos anos setenta, no século passado. Falando assim fica mais clássico e oferta um ar de respeitabilidade, acompanhado de muita velhice. Credo. Mas, era verdade foi na época de quando estava na Universidade, fazendo o curso de Direito, na cidade de Uberaba, no Triângulo Mineiro; donde, também, trabalhava num banco para poder custear tudo, afinal de contas há muito tempo a vida estava por minha conta e ordem.


Foi uma época em que apesar de toda a agitação que passávamos na Faculdade, com o Movimento Estudantil, no Sindicato dos Bancários, por lá fazendo uma oposição dos diabos para derrubar a “pelegada” (expressão que nos referíamos àqueles dirigentes do meio sindical que ficavam elogiando a Ditadura Militar e só ajudando os patrões), além da própria militância política, e, a dedicação com afinco ao CBA (Comitê Brasileiro pela Anistia). Naquele período, também, estávamos preparando e organizando aquela que seria primeira grande Greve Nacional dos Bancários depois do regime militar, a qual, quando aconteceu custou-me o emprego; e, ainda, a triste descoberta que a tal “Abertura Política” que o General Ernesto Geisel, o Presidente de plantão, propalada aos quatros cantos, não era nem uma “Fresta Política”. Mas, no meio disso tudo compúnhamos o gênero da espécie humana, portanto, não obstante àqueles que ficavam só ligados a toda efervescência política, os “marcianos”, tínhamos também o nosso cotidiano de estudante, trabalhador, e, de gente pertencente a uma família.

Estava aproximando a Semana Santa, e, os colegas mais novos da agência bancária onde trabalhava, estavam organizando uma excursão ao litoral para àqueles dias de folga prolongada, e, decidiram que a dita cuja seria ao Rio de Janeiro. Incorporei-me à idéia e ao grupo de imediato. Voltar ao Rio sempre era e foi para mim um deleite, para quem gosta de pensar que pode estar entre o “telúrico” e o “realístico” de um mundo humano acrescido de uma beleza natural incomensurável. Ao longo de minha vida, depois de ter a oportunidade de viajar por inúmeras cidades por todo o mundo, nunca vi nenhuma que se equiparasse a ela em beleza natural, além da marca humana de um povo atípico.

Lembro-me de que meu primeiro contato com o mar se deu no Rio de Janeiro, e, guardo em minha memória essas lembranças que nem o tempo pode apagar. Sempre quando por lá posso estar, gosto de subir ao Corcovado e observar a vista panorâmica mais deslumbrante do mundo. De um lado as construções da cidade se esmicuindo entre as montanhas, e, de outro, o mar salpicado de ilhotas e rochedos, além do brilho contrastante da luz solar refletida sobre a imensa Baia de Guanabara. Fico sempre a pensar naquela visão. Nossa, incrível, como se os dedos de Deus tivessem passado por ali, lenta e generosamente, moldando tudo de bonito que há na parte natural daquele lugar.

Havia, entre os colegas de trabalho na agência bancaria, o nosso amigo, o Luiz Antônio, cognominado de “Pastinho”, pois, quando cheguei a Uberaba ele já estava trabalhando por lá; também, vindo de outra cidade da região, e, todos moravam em algum bairro daquela localidade. Um dia querendo saber onde ele exatamente vivia, pois, não tinha o nome do local, mas, apenas a certeza que era perto do Quartel da Policia Militar, e, como o local era meio grande, perguntei-lhe exatamente onde ficava. De pronto ele respondeu com aquele sotaque de caipira interiorano, se bem que acho difícil que possa existir algo mais caipira, no bom sentido, do que todos nós que vivemos no interior, aqui em Minas Gerais: “... fica perto de um Pastinho, onde tem umas éguas.” Claro nada mais peculiar que num pasto houvesse algum animal a apascentar, ainda que fossem umas éguas. Quando a turma do trabalho ouviu aquilo adivinhem como ficou o apelido do Luiz Antônio daí para frente, e, como o chamávamos o tempo todo: “Pastinho”.

O bom que ele era um cara “light” e nem ligou para a coisa, parecia até que ficava feliz quando só passamos a chamá-lo de “Pastinho”. Ocorre que o nosso impoluto amigo ficou doido com a idéia de ir ao litoral, pois, já ultrapassava os vinte anos de idade e nem conhecia o mar. Ficava a fumar soltando longas baforadas e tecendo loas verbais sobre o mar, e, acreditem perguntando-nos se a água dele era realmente salgada. Claro que tudo aquilo já estava se formando um complô entre os colegas de como seria o primeiro contato dele com a água. Durante a viagem o pessoal encheu e gozou tanto com ele, sobre o seu primeiro contato com o mar, acho que ele passou a ficar meio prevenido de como deveria agir quando chegasse à praia.

Chegamos ao Rio amanhecendo, a neblina ainda cobria as encostas, e, o Pastinho grudado na janela do ônibus que havíamos fretado, para ver se descobria onde estava aquele “marzão” com ele dizia. Acomodamos-nos em vários lugares, mas todos de um modo geral hospedados pelo centro, mais próximos à Cinelândia; e, decidimos que para o primeiro dia o ideal seria ir para a Barra de Tijuca. A Barra naquela época, diríamos era mais “selvagem” ou mais “virgem”, não havia tantas construções e empreendimentos imobiliários como existem hoje em dia. Decidimos também que ninguém ficaria alugando o “Pastinho”, pois, queríamos ver como seria ao natural a sua “premiére” em direção à água marítima.

Não éramos farofeiros, mas, simples mineiros, daqueles que vivem nas montanhas, os quais, quando chegam ao litoral desce a tralha toda, tal qual: violão, atabaque, pandeiro, enfim tudo que produzisse um barulho bom para acompanhar a cantoria na hora do pileque. Instalamos perto de um quiosque e vimos o “Pastinho” meio desconfiado olhando de soslaio para todos, e, nós naquele fingimento que não estávamos nem aí para ele. Já dentro do ônibus ele havia colocado aquele shortinho “samba canção” que estava usando, e, como ele era magrelo já imaginávamos aquilo saindo no impulso da primeira onda.

Ficou ali junto da gente, no quiosque, tomando alguma enquanto pensava como chegar à água que estava ali pertinho, e, realmente descobrir como era o sabor da danada. Nós todos naquela indiferença fingida cantando, conversando, rindo, e, esperando a grande hora. Chegou um momento que ele se cansou e foi caminhando lentamente pela praia em direção às ondas, e, claro com pequenas paradinhas, sempre olhando para trás e aferindo se não estávamos de olho nele. De olho eu não diria, mas, todo mundo estava quase vesgo de tanto ficar observando ele pelos cantos dos olhos, para que não se apercebesse de como acompanhávamos tudo com grande interesse.

Quando se achegou à água, vindo uma onda pulou como uma perereca de brejo, com as pernas abertas e os braços esticados como se tivesse necessidade abraçar tudo, foi levado para frente. Nós ali um pouco distante observando aquela coisa extravagante subindo e descendo ao movimento das ondas, se debatendo de todas as formas. Ao longo de uns quinze minutos saia meio esbaforido da água com aquele shortinho modelo “anos vinte” do século passado, agora bem abaixo dos joelhos, quase saindo do corpo, numa semi-nudez à mostra, e, puxando-o num desespero só para cima, a fim de tapar as vergonhas à mostra de todos. Meio acabrunhado tirando com as mãos o excesso de água dos cabelos e do corpo foi caminhando meio envergonhado e aproximando de nós. O pessoal estava explodindo de dar risadas.

Para contornar aquele riso geral ele meio indignado soltou a seguinte perola: “... pois é, cambada, acham que não vi todos me olhando para ver como seria ao chegar lá na água; como sabia que todos vocês esperavam que fosse enfiar o dedo nela e levar à boca, agi com mais inteligência; ora, não sou burro, pra vocês ficarem me gozando, isso nunca, eu pulei já com a boca aberta e fui bebendo tudo, provando com força para sentir como era o sabor.”

2 comentários:

Flávio disse...

Caro amigo Doctor,
Está ai o comentário que me pediu. Gostei do seu blog e acho que deve sempre acrescentar novas histórias, histórias essas, que fazem parte de cada um de nós. Eu mesmo estou escrevendo um livro de contos cujo nome, é o Diario de um gigolo...acho que vc vai adorar, tendo em vista essa invejável cultura e informação que me foi dada pelo nosso grandioso Deus.....rsrsrs
um grande abraço.... vou ficar agora para terminar a doce leitura que me veio como contribuição no seu Blog...Parabéns
Lúcio Flávio Guimarães

dieison disse...

Passei por aqui
Gostei muito do conto ele se disse esperto mas quase morre afogado, e com a presão alta do sal do mar
adorei
dieison 12/01/2010

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