sexta-feira, 25 de setembro de 2026

  

ARTIGO DE OPINIÃO E ANÁLISE JURÍDICA

 

POPULISMO PENAL DE PRATELEIRA: O "SUPERPRESÍDIO" DE QUE O BRASIL NÃO PRECISA

 

A moda salvadorenha virou slogan de campanha. Mas ninguém explica quem paga a conta — nem por que o modelo que já testamos aqui só fortaleceu as facções.

 

25 de setembro de 2026

Artigo de autoria de WILSON COSTA E SILVA — www.wilcostaesilva.blogspot.com


 

Todo mundo já viu o vídeo: presídios superlotados, algemas coletivas, o "êxito" de BUKELE em EL SALVADOR. E, como todo vídeo viral, ele virou proposta de governo. FLÁVIO BOLSONARO (PL) e RENAN SANTOS (Missão) prometeram 500 mil novas vagas prisionais. ROMEU ZEMA (Novo) quer construir um "superpresídio" na AMAZÔNIA. Copiar e colar, versão de segurança pública.

 

O problema? Os números não fecham — e é aí que a conversa fica séria.

 

1. A conta que ninguém quer mostrar

 

O Brasil já é a terceira maior população carcerária do mundo, com quase 965 mil presos em 2025. Desde o ano 2000, encarceramos 449% mais — saímos de 174 mil para quase 1 milhão de pessoas presas. Ou seja: os mesmos 500 mil presos que os candidatos prometem "acrescentar" são, praticamente, tudo o que já adicionamos em 25 anos de endurecimento penal.

 

Resultado dessa política? Gastamos bilhões, nunca nos sentimos tão inseguros e foi dentro dos presídios superlotados que nasceram as dezenas de facções que hoje aterrorizam o país — inclusive grupos classificados como terroristas pelos Estados Unidos.

 

E tem mais: o déficit real de vagas, segundo a SENAPPEN, é de cerca de 200 mil. A promessa de 500 mil novas vagas ultrapassa a demanda em 150%. De onde veio o número? Para quem vão as vagas? Como os tribunais vão absorver a explosão de processos de execução penal? Quanto custa? Ninguém responde — porque ninguém estudou

.

2. O funil invertido

 

A pesquisa Funil de Investimentos da Segurança Pública, do centro Justa, dá a dimensão do desequilíbrio. Em 2025, os estados destinaram cerca de R$ 103,5 bilhões às polícias e R$ 22,3 bilhões ao sistema prisional. No fim do funil, políticas para egressos — aqueles que saem da cadeia e precisam não voltar — receberam míseros R$ 19 milhões. É isso mesmo: R$ 5.423 em repressão para cada R$ 1 em reinserção.

 

Aí está a raiz do problema. Cadeia lotada sem ressocialização é fábrica de criminosos com diploma de facção.

 

3. Lei penal sem nota fiscal

 

Aqui vai um ponto que pouca gente conhece: a Lei de Responsabilidade Fiscal exige fonte de custeio para toda nova despesa. Mas mudança na lei penal? Essa escapa do filtro. Ninguém precisa demonstrar impacto social ou orçamentário para prometer mais cadeia.

 

Existe, inclusive, um projeto de lei tramitando no CONGRESSO — o PL 4.373/2016, a chamada "LEI DE RESPONSABILIDADE POLÍTICO-CRIMINAL" — que exige exatamente isso: análise de impacto antes de qualquer endurecimento penal. Apoiar punição dura é legítimo. Ignorar quem vai pagar a conta é irresponsabilidade fiscal disfarçada de bravata eleitoral.

 

4. O plano que já existe — e ninguém comenta

 

O Brasil não precisa importar solução de um país com população menor que a cidade do Rio de Janeiro. Já temos o PLANO PENA JUSTA, determinado pelo STF a partir da ADPF 347, construído pelo CNJ com mais de 300 metas pactuadas com os 27 estados, com prazos e orçamento definidos. Em 2025, todos os estados entregaram seus planos locais, e o Supremo vem homologando-os neste ano.

 

É o caminho sério: enfrentar a superlotação, acelerar a execução penal, investir em egressos — com evidência técnica, não com viral de rede social.

 

5. A ironia final

 

A política salvadorenha é tentadora justamente porque é simples: prende tudo e todos, e pronto. Mas políticas penais sem critério são um bumerangue — quem decide quem vai para o "superpresídio"? Quem garante que o critério não será usado contra adversários, jornalistas, opositores? Hoje os entusiastas do modelo aplaudem; amanhã podem ser eles os "infratores da lei" da lista. Quem vive de exceções, um dia é exceção.

 

A política salvadorenha seduz porque promete o atalho da solução fácil e imediata. Mas a história institucional do DIREITO PENAL ensina que ‘REGIMES DE EXCEÇÃO’ desprovidos de critério rigoroso funcionam como um bumerangue implacável contra quem os forjou. Quando se relativiza o devido processo legal em nome do aplauso fácil, dissolvem-se as fronteiras da legalidade: quem define hoje quem deve ir para o "superpresídio" pode, amanhã, constar dessa exata lista. Exceções sem controle nunca pacificam a sociedade; apenas aparelham o arbítrio.

 

O eleitor não é ingênuo e percebe com clareza quando uma proposta não passa de mero marketing penal em vez de verdadeira política de ESTADO.

 

SEGURANÇA PÚBLICA exige inteligência, planejamento e responsabilidade orçamentária, não retórica eleitoreira. Cabe aos candidatos apresentar números factíveis, comprovação de custeio e critérios técnicos e jurídicos claros para o que prometem — sob pena incontornável de serem cobrados de forma impiedosa nas urnas.

 

Que a SEGURANÇA PÚBLICA seja tratada com a seriedade que merece nestas eleições. RESPONSABILIDADE FISCAL também vale para a POLÍTICA CRIMINAL — e o eleitor tem o direito de saber, antes de votar, quem pagará a conta.


 

Fontes:

 

• Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025

• SENAPPEN/MJSP (CPI do Crime Organizado, nov/2025)

• Pesquisa "O Funil de Investimentos da Segurança Pública nos Estados Brasileiros" (Justa, 2026)

• CNJ/STF — Plano Pena Justa (ADPF 347)

 

https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/os-custos-do-populismo-penal.shtml

 

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